Debate sobre os desafios do movimento sindical reforça a necessidade de ouvir quem trabalha em diferentes vínculos, turnos e locais, especialmente no turismo e na hospitalidade.
As mudanças nas formas de contratação, nas relações de trabalho e no uso da tecnologia exigem que os sindicatos revejam como se aproximam dos trabalhadores. O tema foi discutido recentemente em um encontro do movimento sindical no Nordeste, com a participação de Fernando Antônio Soares, o Nando Poeta, formador do Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese), e Marcelo Tinôco, integrante da direção nacional da Intersindical.
A questão colocada por Nando Poeta é direta: se o mundo do trabalho mudou, como transformar a mobilização sindical para continuar representando a classe trabalhadora? A resposta passa por comunicação mais acessível, formação, presença permanente nos locais de trabalho e capacidade de reunir pessoas que enfrentam problemas semelhantes, mesmo quando têm contratos diferentes.
No turismo e na hospitalidade, esse desafio aparece todos os dias. Hotéis, bares, restaurantes, serviços de eventos e outras atividades do setor funcionam à noite, nos fins de semana e nos feriados. Há trabalhadores efetivos, temporários, terceirizados e contratados por outras modalidades dividindo o mesmo ambiente. Para conhecer essa realidade, o sindicato precisa ouvir recepcionistas, camareiras, garçons, cozinheiras, equipes de limpeza, manutenção e atendimento nos horários em que essas pessoas podem participar — inclusive fora do expediente comercial.
Essa escuta deve orientar tanto a negociação coletiva quanto o atendimento cotidiano. Escalas e períodos de descanso, pagamento de horas extras, transporte em horários de pouca circulação, segurança no deslocamento, prevenção do assédio e saúde mental são questões que podem assumir formas diferentes em cada cidade ou estabelecimento. Registrar as demandas, identificar o que se repete e devolver respostas claras aos trabalhadores é um caminho para transformar queixas individuais em reivindicações coletivas.
Marcelo Tinôco destacou que a atuação sindical também exige preparo para negociar. Conhecer os salários, os vínculos de emprego e as condições reais de trabalho da categoria ajuda a definir prioridades e a avaliar propostas patronais. Assembleias acessíveis, prestação de contas e explicações simples sobre as convenções coletivas permitem que mais trabalhadores participem das decisões e acompanhem seus resultados.
Há espaço para ampliar essa participação. Segundo o IBGE, a taxa de sindicalização no Brasil chegou a 8,9% das pessoas ocupadas em 2024. Foi a primeira alta registrada desde 2012, mas o percentual ainda mostra o tamanho do trabalho necessário para aproximar as entidades de suas bases.
A comunicação digital pode ajudar nessa aproximação, desde que sirva para ouvir e orientar, além de divulgar campanhas. Uma dúvida enviada pelo celular pode revelar uma prática comum a toda uma equipe. Uma informação objetiva sobre direitos pode alcançar quem não consegue ir à sede sindical. O contato presencial, por sua vez, continua essencial para construir confiança e conhecer situações que dificilmente aparecem nas redes sociais.
O debate no Nordeste também apontou a necessidade de incluir igualdade de gênero, combate ao racismo, saúde mental e defesa da democracia na agenda sindical. São temas ligados à vida concreta de quem trabalha e às condições para exercer direitos sem discriminação ou medo. Para os sindicatos de turismo e hospitalidade de todo o país, a tarefa é manter uma presença reconhecível no cotidiano da categoria: ouvir com regularidade, negociar com conhecimento e mostrar, em cada ação, como a organização coletiva pode melhorar o trabalho e a vida das pessoas.
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