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Marilane Teixeira: Compensar o trabalhador, não as empresas

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 continua no centro do debate nacional após a aprovação da proposta na Câmara dos Deputados. Enquanto trabalhadores e entidades sindicais defendem melhores condições de vida, representantes do setor empresarial pressionam o Congresso por compensações fiscais, desonerações e mecanismos de flexibilização das relações de trabalho. Para a pesquisadora Marilane Oliveira Teixeira, do Cesit/IE-Unicamp, essa lógica distorce completamente o sentido da reivindicação trabalhista.

Em entrevista ao site A Nova Democracia (AND), Marilane afirmou que quem precisa ser compensado são os trabalhadores, submetidos há décadas a jornadas desgastantes, baixos salários e perda da qualidade de vida. Segundo ela, é “um absurdo” transformar a redução da jornada em justificativa para novas vantagens às empresas. A pesquisadora criticou a pressão exercida por setores do grande capital por incentivos e benefícios tributários sob o argumento de que a diminuição das horas trabalhadas aumentaria os custos de produção.

O debate ganhou força também por causa da tramitação, no Senado, da chamada PEC do “trabalho flexível”, defendida por entidades empresariais. A proposta prevê maior liberdade para acordos individuais e jornadas fragmentadas, permitindo que empresas organizem os horários conforme a demanda. Críticos afirmam que, na prática, isso pode ampliar a precarização, enfraquecer direitos coletivos e aumentar a insegurança do trabalhador.

Marilane lembra que o discurso de “catástrofe econômica” acompanha historicamente qualquer proposta de redução da jornada. Segundo ela, os mesmos argumentos foram usados contra projetos anteriores, como a redução para 36 horas semanais. A pesquisadora afirma que estudos do Cesit/IE-Unicamp contestam a tese de que menos horas de trabalho provocariam queda automática da produção, do consumo e da renda.

De acordo com ela, a produção das empresas é determinada principalmente pela demanda do mercado e não apenas pela quantidade de horas trabalhadas. Em setores altamente tecnológicos, parte da redução poderia ser absorvida pelos ganhos de produtividade acumulados ao longo dos anos. Já áreas intensivas em mão de obra — como comércio, hotelaria, alimentação, saúde, cultura e serviços — tenderiam a gerar novas contratações para manter as atividades.

A pesquisadora também relaciona a discussão da jornada à realidade social brasileira, especialmente à sobrecarga enfrentada pelas mulheres, que acumulam trabalho remunerado e tarefas domésticas não pagas. Para ela, jornadas extensas afetam diretamente o acesso ao descanso, à convivência familiar, ao lazer, aos estudos e até à saúde mental.

Outro ponto destacado é a percepção de que os jovens não rejeitam necessariamente o emprego formal, mas sim condições consideradas degradantes, com excesso de horas, baixa remuneração e pouca perspectiva de qualidade de vida. Nesse cenário, a escala 6×1 tornou-se símbolo de desgaste físico e emocional, principalmente em setores de atendimento e serviços.

O centro da disputa, segundo especialistas ouvidos pelo AND, está na divisão dos ganhos de produtividade da economia. De um lado, empresas tentam preservar margens de lucro e ampliar flexibilidade. De outro, trabalhadores reivindicam que avanços tecnológicos e produtivos também se traduzam em mais tempo livre, saúde e dignidade.

A fala de Marilane Teixeira reforça um argumento que vem ganhando espaço no debate trabalhista brasileiro: a redução da jornada não deve ser tratada como privilégio ou concessão às empresas, mas como uma forma de devolver qualidade de vida a quem sustenta a produção e os serviços diariamente.

Fonte: Jornal A Nova Democracia (AND).

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