Jornadas prolongadas, desgaste físico intenso, trabalho em fins de semana, feriados e períodos noturnos. Essas características fazem parte da rotina de milhões de brasileiros empregados em hotéis, bares, restaurantes, empresas de eventos, parques temáticos, cozinhas industriais e demais segmentos do turismo e da hospitalidade. Para esses profissionais, a Reforma da Previdência de 2019 trouxe impactos que vão muito além das mudanças burocráticas nas regras de aposentadoria.
Embora a discussão nacional tenha se concentrado na sustentabilidade das contas públicas, especialistas em Direito Previdenciário e dirigentes sindicais chamam atenção para outro aspecto: a reforma alterou profundamente as perspectivas de aposentadoria justamente para categorias que convivem diariamente com elevado desgaste físico e mental.
No setor de turismo e hospitalidade, essa realidade é facilmente observada.
Camareiras percorrem quilômetros pelos corredores dos hotéis carregando equipamentos e enxovais pesados.
Cozinheiros permanecem horas diante de altas temperaturas.
Garçons trabalham grande parte da jornada em pé, transportando peso constantemente.
Profissionais da limpeza utilizam diariamente produtos químicos.
Recepcionistas enfrentam escalas noturnas, alteração do ritmo biológico e elevada carga emocional no atendimento ao público.
São atividades que, embora muitas vezes invisíveis aos olhos da sociedade, exigem esforço contínuo e acumulam efeitos ao longo dos anos.
O desafio de permanecer mais tempo no trabalho
Com a Reforma da Previdência, milhões de trabalhadores passaram a precisar permanecer mais tempo no mercado para alcançar a aposentadoria.
Para categorias predominantemente físicas, isso representa um desafio adicional.
Segundo especialistas em saúde do trabalhador, o envelhecimento naturalmente reduz força muscular, resistência física e capacidade de recuperação, tornando mais difícil manter o mesmo ritmo exigido por atividades intensas.
No turismo, onde o atendimento ao público depende da disposição física e emocional dos empregados, essa situação ganha contornos ainda mais delicados.
Aposentadoria restritiva
Outro ponto que preocupa entidades sindicais envolve as mudanças na aposentadoria especial.
Embora nem todas as funções do setor se enquadrem nas regras para atividades especiais, diversas ocupações apresentam exposição a calor intenso, agentes químicos, ruído ou outros fatores cuja caracterização depende de laudos técnicos e do Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP).
Com a reforma, além da comprovação da exposição aos agentes nocivos, passaram a existir requisitos adicionais, incluindo idade mínima em muitas situações.
Na avaliação de especialistas, isso tornou o acesso ao benefício mais difícil para parte dos trabalhadores.
Um setor que envelhece
Outro desafio pouco discutido envolve o próprio mercado de trabalho.
Empresas do turismo costumam buscar profissionais com elevada capacidade física para funções operacionais.
À medida que aumenta a idade média dos trabalhadores, cresce também o desafio de permanecer empregado até cumprir todos os requisitos para aposentadoria.
Essa combinação pode gerar um problema social importante: trabalhadores obrigados a permanecer mais tempo na ativa justamente em um mercado que nem sempre oferece oportunidades para profissionais mais velhos.
Saúde física e saúde mental
O setor de turismo e hospitalidade também registra altos índices de adoecimento relacionados ao trabalho.
Jornadas extensas, escalas em fins de semana e feriados, pressão por produtividade, atendimento permanente ao público e dificuldades para conciliar vida profissional e familiar aumentam o desgaste emocional.
Diversos estudos apontam crescimento de casos de ansiedade, estresse ocupacional e síndrome de burnout em atividades ligadas ao atendimento ao público.
Especialistas alertam que prolongar a permanência nessas condições pode ampliar os riscos de afastamentos por incapacidade e comprometer a qualidade de vida dos trabalhadores.
O papel do movimento sindical
Para o presidente da Contratuh, Wilson Pereira, o debate sobre Previdência não pode ser dissociado das condições reais de trabalho.
“Defendem que discutir aposentadoria significa também discutir saúde ocupacional, prevenção de acidentes, valorização profissional e ambientes de trabalho mais seguros.
No turismo e na hospitalidade, onde o esforço físico e emocional faz parte da rotina, esse debate ganha importância ainda maior.
Mais do que acompanhar mudanças na legislação, o desafio passa a ser construir políticas que permitam ao trabalhador chegar à aposentadoria com saúde, dignidade e qualidade de vida”, ressalta o presidente
Quando o corpo envelhece antes da aposentadoria
Segundo estudos sobre saúde ocupacional, trabalhadores dos setores de hotelaria, alimentação e serviços convivem frequentemente com fatores como:
- movimentos repetitivos;
- levantamento constante de peso;
- permanência prolongada em pé;
- trabalho noturno;
- calor excessivo em cozinhas;
- exposição a produtos químicos de limpeza;
- pressão permanente no atendimento ao público;
- jornadas em fins de semana e feriados.
Especialistas alertam que o acúmulo desses fatores ao longo dos anos pode acelerar o desgaste físico e tornar mais difícil permanecer no mercado de trabalho até idades mais avançadas.
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