O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026 traz uma mensagem clara: o Brasil voltou a crescer, mas não conseguiu se libertar das amarras históricas que estruturam sua sociedade.
É inegável que 2025 foi um ano de conquistas. O desemprego caiu para 5,6%, a renda média cresceu 5,3% e indicadores como segurança alimentar, educação e redução da violência juvenil mostraram avanços. Esses números deveriam ser motivo de celebração. No entanto, o relatório expõe o lado menos visível desse progresso: ele não foi capaz de romper o ciclo de desigualdades que atravessa o país.
A concentração de renda é o exemplo mais gritante. O 1% mais rico passou a ganhar 31,5 vezes mais que os 50% mais pobres. Em outras palavras, o crescimento econômico continua sendo apropriado por uma elite, enquanto milhões seguem à margem. A regressividade da tributação da renda reforça esse quadro, beneficiando quem vive de lucros e dividendos em detrimento dos trabalhadores assalariados.
As desigualdades de gênero e raça também se aprofundaram. Mulheres seguem recebendo menos que homens, e a situação das mulheres negras é a mais dramática: rendimentos equivalentes a pouco mais de 40% dos homens não negros, além de maior concentração em ocupações de baixa remuneração. No sistema prisional, negros representam 70% dos detentos, embora sejam 56% da população. Esses números não são apenas estatísticas — são o retrato de um país que insiste em negar oportunidades iguais.
Regionalmente, Norte e Nordeste continuam sendo territórios de vulnerabilidade, com maiores índices de pobreza, analfabetismo, mortalidade infantil e gravidez na adolescência. Enquanto isso, Sul e Sudeste desfrutam de melhores condições de vida. O mapa da desigualdade brasileira permanece praticamente inalterado, revelando que o território ainda define o destino de milhões.
No campo ambiental, o contraste é igualmente preocupante. O país reduziu emissões de gases de efeito estufa e desmatamento, mas aumentou o número de pessoas vivendo em áreas de risco geológico. A agenda climática brasileira, portanto, precisa ir além da mitigação: é urgente incorporar políticas de adaptação que protejam os mais vulneráveis.
O relatório conclui que 71% dos indicadores melhoraram, mas 16% pioraram e 13% ficaram estáveis. Esse balanço mostra que o Brasil não está parado, mas também não está mudando na velocidade necessária. Crescimento econômico e geração de empregos são fundamentais, mas não bastam. Sem políticas públicas intencionais e estruturais, o país continuará celebrando avanços superficiais enquanto mantém intactas as desigualdades que corroem sua democracia e limitam seu futuro.
O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade, Wilson Pereira, observa: “O Brasil precisa escolher se quer ser uma nação que apenas cresce ou uma nação que cresce com justiça. O relatório é um alerta: sem enfrentar de frente as desigualdades de renda, gênero, raça e território, o país seguirá avançando em círculos, sem nunca romper suas correntes históricas.”
Na avaliação de Sônia Zerino, presidente da Nova Central Sindical de Trabalhadores, que esteve na atividade que analisou o pacto: “Os dados demonstram que o Brasil está avançando no enfrentamento das desigualdades, embora ainda existam desafios importantes a serem superados. As políticas públicas adotadas nos últimos anos estão produzindo efeitos positivos na vida da população. É importante reconhecer esses avanços, mas também manter a mobilização e o compromisso com a redução das desigualdades que ainda persistem no país”.
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