- Pedro Thiago
Em agosto, a pesquisa CNT/MDA perguntou a milhares de brasileiros se qualquer propaganda eleitoral produzida com inteligência artificial deveria ser proibida. Quase metade respondeu que sim [1]. Na mesma pesquisa, 45% dos entrevistados apontaram as redes sociais como principal fonte de informação eleitoral [1]. Não é um dado isolado. É o retrato de um ambiente em que a informação política, inclusive a institucional, chega ao cidadão por um caminho que a própria instituição não controla mais.
Durante décadas, a comunicação institucional brasileira, sindicatos incluídos, operou sob uma presunção simples: quem fala com formalidade fala com autoridade. Timbre, assinatura da diretoria, linguagem jurídica e canal oficial funcionavam como selo de legitimidade. Bastava produzir a informação corretamente para que ela fosse recebida como verdadeira.
Essa presunção está com os dias contados. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, mostra que a confiança geral nas notícias no Brasil caiu ao menor nível em doze anos, e que 47% das pessoas dizem evitar notícias às vezes ou com frequência [2]. O Edelman Trust Barometer 2026 descreve o fenômeno com um termo preciso: insularidade. Diante de ansiedade econômica e disputa política, as pessoas não deixam de confiar, apenas encolhem o círculo em quem confiam, priorizando quem está próximo e quem já demonstrou, na prática, merecer crédito [3].
O relatório da Sala de Articulação contra Desinformação, também divulgado este mês, ajuda a entender por que essa retração faz sentido. Ao avaliar políticas eleitorais de redes sociais, aplicativos de mensagem e plataformas de inteligência artificial, o estudo encontrou um ambiente desigual: algumas redes já têm mecanismos de contenção mais maduros, mas as plataformas de IA seguem com regras insuficientes e pouco transparentes para lidar com conteúdo sintético [4]. Ou seja, nem a própria infraestrutura digital garante que uma mensagem chegue identificável, verificável ou rastreável até sua origem.
O efeito prático é que a autoridade que antes podia ser presumida agora precisa ser demonstrada, mensagem por mensagem. Não basta a instituição ter razão. É preciso que quem recebe a informação consiga, sozinho e rapidamente, confirmar que aquilo é verdade, que aquilo vale para o seu caso e que existe alguém identificável por trás do que foi dito. Quando essa confirmação não está disponível, o espaço não fica vazio. Ele é ocupado por quem estiver mais perto: um colega, um grupo de WhatsApp, um vídeo convincente, verdadeiro ou não.
É uma inversão incômoda para qualquer instituição, sindical ou não. A legitimidade deixou de morar no remetente e passou a depender de quanto a mensagem resiste à pergunta mais simples que existe: como eu confirmo isso? Instituições que ainda apostam apenas na correção formal do que dizem estão respondendo a uma pergunta que o público já parou de fazer.
O ano eleitoral apenas torna esse deslocamento mais visível. Mas ele não termina com a eleição. Se a confiança institucional depende cada vez mais de verificação e proximidade, e cada vez menos de formalidade, a pergunta que fica não é como produzir comunicados mais corretos. É como fazer com que cada informação carregue, já na origem, os meios para ser confirmada por quem a recebe. Essa é a fronteira em que a autoridade de qualquer instituição, a partir de agora, vai ser decidida.
- Pedro Thiago – assessor de comunicação Sintibref-MG, Sintibref-PE e SEIBREF-SP
Referências
[1] CNT/MDA. Pesquisa sobre redes sociais e inteligência artificial nas eleições. 11 de agosto de 2026.
[2] Reuters Institute for the Study of Journalism. Digital News Report 2026, Brasil. University of Oxford, 2026.
[3] Edelman. Edelman Trust Barometer 2026, Brasil. 2026.
[4] Sala de Articulação contra Desinformação. O papel das plataformas digitais na proteção da integridade eleitoral, edição 2026. 2026.
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