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Quando o crime ocupa o poder

  • Texto adaptado de artigo de Claudia Maldonado – é advogada e referência no setor de turismo

A degradação ética no Brasil não ocorreu de forma abrupta. Foi se consolidando aos poucos, normalizando práticas em que o “jeitinho” substitui a honestidade, a omissão é tratada como prudência e interesses pessoais passam a prevalecer sobre o bem coletivo.

Nesse contexto, a percepção de criminalidade ainda se concentra no delito comum, visível e imediato. No entanto, há um tipo de crime menos perceptível e potencialmente mais danoso: aquele praticado dentro das instituições. Quando agentes públicos — eleitos ou técnicos — utilizam suas funções para distorcer decisões, manipular recursos ou atender interesses privados, o impacto deixa de ser individual e passa a atingir toda a sociedade.

Diferentemente de um crime comum, que afeta vítimas identificáveis, os desvios no âmbito do poder público produzem consequências amplas e difusas. São prejuízos que se traduzem em serviços precários, investimentos interrompidos, perda de confiança nas instituições e redução da qualidade de vida da população.

A Constituição brasileira estabelece que a administração pública deve obedecer a princípios como legalidade, impessoalidade, moralidade e eficiência. Quando esses fundamentos são violados por quem deveria garanti-los, o dano ultrapassa o aspecto financeiro e compromete a própria estrutura da democracia.

Especialistas e análises recorrentes apontam uma distorção no sistema de responsabilização: enquanto crimes de menor escala recebem resposta mais imediata, irregularidades complexas, muitas vezes associadas ao exercício do poder, enfrentam processos mais lentos e menos eficazes. Essa assimetria contribui para a percepção de impunidade e fragiliza o controle social.

O problema, contudo, não se limita às instituições. A manutenção desse cenário também está ligada ao comportamento coletivo — seja pela tolerância seletiva, pela memória curta do eleitorado ou pela ausência de critérios consistentes na escolha de representantes.

Nesse sentido, o funcionamento da democracia depende não apenas da atuação de líderes e gestores, mas do engajamento da sociedade. A qualidade das decisões públicas está diretamente relacionada à forma como o poder é concedido, fiscalizado e cobrado.

A reflexão central é que os danos provocados pelo mau uso da função pública tendem a ser mais profundos e duradouros do que aqueles causados por crimes individuais. E enfrentá-los exige não apenas mecanismos institucionais mais eficazes, mas também uma postura mais crítica e responsável por parte da sociedade.

 

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