· Pedro Thiago
Em Pedro Leopoldo, região metropolitana de Belo Horizonte, uma pesquisa recente ouviu doze mulheres que nunca assinaram carteira em nenhuma fábrica de amianto. Ainda assim, carregam no corpo os efeitos de décadas de exposição ao mineral. Elas lavavam a roupa de maridos e pais que trabalhavam na indústria da região. A fibra que se soltava do tecido no varal, na bacia, na pia da cozinha, continuava ali, silenciosa, muito depois de o expediente ter terminado para quem de fato recebia salário por aquele trabalho.
Na mesma semana, um estudo da Organização Internacional do Trabalho sobre mortalidade associada ao calor na Colômbia trouxe um dado que desloca outra intuição comum. Quando o tema é calor extremo, o imaginário corre direto para o trabalhador rural, para quem carrega peso sob o sol. Os números, no entanto, mostram profissionais de saúde e de educação entre os grupos mais afetados por temperaturas acima de 32 graus, ao lado de montadores industriais. Uma sala de aula lotada, sem ventilação adequada, pode produzir um risco térmico que nenhuma vistoria pensada para canteiro de obras ou lavoura está preparada para enxergar.
Os dois estudos, de países diferentes, tratando de riscos diferentes, tropeçam na mesma fronteira. O aparato que existe para registrar, prevenir e indenizar o adoecimento do trabalho foi construído em torno de uma unidade espacial muito específica: o posto de trabalho, o chão de fábrica, o cargo registrado em carteira. Toda a arquitetura de perícia médica, nexo causal, tabela de insalubridade e vigilância epidemiológica pressupõe que o risco nasce e morre dentro desse perímetro. O problema é que, como os dois estudos documentam com bastante precisão, a exposição real nem sempre respeita esse desenho.
No caso do amianto, o risco atravessa a porta de casa dentro de uma cesta de roupa suja. No caso do calor, ele aparece num tipo de ambiente que a própria categoria profissional não associaria a si mesma como fonte de exposição térmica. Em ambos, existe alguém pagando um preço biológico por um risco que a ficha funcional de ninguém registra. A trabalhadora que lava a roupa contaminada não tem matrícula na fábrica. O professor que dá aula numa sala sem ventilação não tem, no seu registro profissional, nenhuma menção a calor ocupacional.
Essa distância entre a unidade administrativa do risco e a unidade real da exposição não é um detalhe técnico menor. Ela determina quem consegue provar nexo causal décadas depois, quando a doença finalmente aparece. Determina quem entra numa estatística oficial e quem permanece como caso disperso, contado apenas quando um grupo de pesquisa decide ir a campo perguntar, um por um, como foi a vida de cada pessoa fora do expediente formal. E determina, também, para quem a proteção do trabalho de fato foi desenhada, e para quem ela foi pensada como algo residual, quase acidental.
Nenhum dos dois estudos aponta uma solução fechada para esse descompasso, e talvez não devesse. O que ambos fazem, com o rigor paciente de quem trabalha com dados de décadas, é registrar que a fronteira do risco se moveu antes que a fronteira da proteção percebesse. Fica em aberto uma pergunta que tende a se repetir conforme o trabalho se torna menos confinado a um único endereço físico: se a exposição já não cabe dentro do perímetro do posto de trabalho, por quanto tempo ainda fará sentido medir proteção olhando apenas para dentro dele.
- Pedro Thiago – assessor de comunicação de Sintibref-MG, Sintibref-PE, Sintibref-DF, Seibref-SP, SECOTUH e SINBRAF-RS.
contato: pedro@pedepitanga.cc
Referências
[1] FELIX, E. G.; GOMES, L.; WAISSMANN, W. Invisíveis no trabalho e na saúde: exposição ocupacional de mulheres ao amianto na região de Pedro Leopoldo-MG, Brasil. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 50, 2025.
[2] ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Climate-Related Heat Stress and Occupational Mortality in Colombia. ILO Working Paper 178, 13 ago. 2026.
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