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O trabalhador não rejeita o sindicato – ele precisa reconhecer sua presença

Uma pesquisa realizada com trabalhadores do comércio de Santa Catarina, filiados e não filiados, ajuda a questionar uma narrativa repetida há anos no Brasil: a de que os trabalhadores teriam perdido o interesse pelos sindicatos. Embora o estudo retrate uma realidade estadual e não possa ser automaticamente generalizado, as percepções apresentadas oferecem ensinamentos importantes para entidades sindicais de todas as regiões e categorias profissionais.

O levantamento, desenvolvido por O Germinal em parceria com a Federação dos Comerciários de Santa Catarina (FECESC), indica que muitos trabalhadores continuam reconhecendo o sindicato como uma organização necessária para defender salários, benefícios e condições dignas de trabalho. O problema, portanto, nem sempre está na rejeição à instituição sindical, mas na distância entre aquilo que o sindicato realiza e o que o trabalhador consegue perceber em seu cotidiano.

Essa diferença precisa ser compreendida com serenidade. O trabalhador que procura atendimento geralmente chega com uma dúvida concreta, uma insegurança ou um problema que considera urgente. Ele não está necessariamente interessado em conhecer, naquele primeiro momento, toda a estrutura sindical ou a história das negociações coletivas. Quer saber se determinada cobrança está correta, se tem direito a uma folga, como deve agir diante de uma irregularidade ou a quem recorrer quando se sente prejudicado.

É justamente nesse contato que o sindicato pode aproximar, informar e reconstruir vínculos. Uma resposta impaciente, excessivamente burocrática ou limitada a quem já é associado pode reforçar a sensação de abandono. Por outro lado, uma orientação respeitosa, mesmo quando o atendimento integral depender da filiação, pode mostrar ao trabalhador que existe uma entidade preparada para caminhar ao seu lado.

A palavra-chave é paciência: explicar, explicar e explicar. É preciso esclarecer a diferença entre ser representado por uma categoria, contribuir para o custeio das negociações e associar-se voluntariamente para ter acesso a determinados serviços. Também é necessário mostrar quem negociou o reajuste salarial, conquistou o adicional, preservou o vale-alimentação, garantiu a estabilidade ou procurou impedir a retirada de direitos. Muitas conquistas sindicais estão presentes no contracheque, mas chegam ao trabalhador sem a identificação de quem lutou por elas.

A pesquisa também chama a atenção para a importância das visitas presenciais. Segundo os relatos, os trabalhadores apreciam a presença dos dirigentes nas empresas e gostariam que ela fosse mais frequente. Essas visitas permitem que o sindicato conheça a realidade dos locais de trabalho, apresente seus serviços, divulgue os benefícios disponíveis e estabeleça uma relação de confiança com a categoria.

Entretanto, visitar uma empresa não deve significar apenas distribuir materiais ou pedir filiações. É preciso conversar, ouvir reclamações e explicar de maneira simples o papel da negociação coletiva. Quando possível, a entidade deve retornar posteriormente com respostas e encaminhamentos. A continuidade demonstra que aquela conversa não foi apenas uma ação de divulgação, mas parte de uma relação permanente de representação.

Outro ponto importante é a avaliação dos benefícios oferecidos. Convênios médicos e odontológicos, descontos em farmácias, assistência jurídica e outros serviços podem ser muito relevantes. Contudo, se o acesso for difícil, burocrático ou pouco explicado, o trabalhador deixará de enxergar valor neles. Mais do que aumentar a quantidade de convênios, é necessário verificar se os serviços são realmente utilizados, se atendem às necessidades da categoria e se podem ser acessados sem obstáculos desnecessários.

Os depoimentos reunidos no estudo também revelam uma confiança, muitas vezes passageira, na chamada “gestão humanizada” das empresas. Alguns trabalhadores acreditam que, por terem atualmente um empregador que paga corretamente e mantém uma boa relação com os funcionários, não precisarão do sindicato. Essa percepção pode ser compreensível, mas ignora que direitos não devem depender exclusivamente da boa vontade de um gestor.

Chefias mudam, empresas são vendidas, crises econômicas acontecem e decisões tomadas unilateralmente podem alterar salários, jornadas e benefícios. Mesmo a empresa considerada correta precisa cumprir regras que foram estabelecidas em lei ou conquistadas por meio de negociação coletiva. O sindicato não existe apenas para enfrentar o mau empregador. Ele também atua para impedir retrocessos, negociar avanços e garantir que as condições existentes sejam preservadas no futuro.

Por isso, quando a promessa de uma administração humanizada não corresponde à realidade, muitos trabalhadores voltam a procurar a entidade sindical. O desafio é não os receber com ressentimento, censura ou a frase “agora você precisa do sindicato”. Quem retorna deve encontrar acolhimento, orientação e uma oportunidade para compreender por que a organização coletiva continua necessária.

Isso não significa ignorar a importância da filiação. Ao contrário: o atendimento pode ser o primeiro passo para demonstrar por que vale a pena associar-se. O sindicato precisa explicar, com transparência, que sua atuação exige estrutura, profissionais, deslocamentos, campanhas, negociações e recursos. Também deve mostrar a diferença entre a orientação inicial oferecida à categoria e os serviços específicos destinados aos associados, sem transformar essa distinção em uma barreira hostil.

As práticas antissindicais existentes nos locais de trabalho igualmente precisam ser consideradas. Quando circulam informações distorcidas sobre contribuições, cartas de oposição, negociações ou benefícios, a entidade sindical não pode responder apenas com indignação. Precisa chegar antes, apresentar fatos, desfazer boatos e estabelecer canais seguros para que os trabalhadores possam tirar dúvidas sem medo de exposição ou retaliação.

A baixa sindicalização tem causas estruturais: rotatividade, informalidade, terceirização, contratos precários, jornadas desgastantes, mudanças no mercado de trabalho e campanhas permanentes de desvalorização das entidades. Nenhuma estratégia isolada resolverá esse conjunto de problemas. Entretanto, atendimento respeitoso, comunicação simples, presença nos locais de trabalho e prestação de contas podem interromper o ciclo de afastamento e desfiliação.

O principal ensinamento é que o dirigente sindical não deve enxergar o trabalhador desinformado como adversário. Mesmo aquele que apresentou oposição, deixou de contribuir ou pediu desfiliação continua pertencendo à categoria e pode voltar a compreender a importância da ação coletiva. Antes de julgar, é preciso conhecer as razões do afastamento. Muitas vezes, por trás da recusa, existe uma experiência ruim, uma dúvida não respondida ou o desconhecimento sobre as conquistas obtidas.

O sindicalismo se fortalece quando o trabalhador reconhece nele uma presença confiável. Isso exige escuta, autocrítica, transparência e disposição para ensinar sem arrogância. O objetivo não deve ser apenas conquistar uma assinatura de filiação, mas construir consciência coletiva. A filiação sólida nasce quando o trabalhador percebe que nenhuma gestão empresarial, por mais “humanizada” que se apresente, substitui uma organização independente, formada e sustentada pelos próprios trabalhadores.

A conclusão que pode ser levada de Santa Catarina para o debate nacional é positiva: os sindicatos não perderam sua razão de existir. Precisam, porém, tornar sua atuação mais próxima, compreensível e visível. A reconstrução dos vínculos começa com atitudes simples, repetidas todos os dias: visitar, ouvir, orientar, prestar contas e explicar. Sempre que for necessário, explicar novamente.

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