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“O Brasil não tem uma elite que pense no país”, José Kobori

Em um momento em que trabalhadores brasileiros intensificam o debate sobre valorização profissional, redução da jornada exaustiva e melhores condições de vida, uma reflexão do educador financeiro e analista José Kobori reacende uma discussão histórica: afinal, por que o Brasil continua encontrando dificuldades para se transformar em uma nação plenamente desenvolvida?

A análise de Kobori, líder da Confraria José Kobori, parte de uma comparação histórica feita pelo economista Celso Furtado entre Brasil e Estados Unidos no início do século XIX. Segundo ele, os dois países possuíam economias semelhantes em determinados aspectos, especialmente na produção de algodão baseada no trabalho escravo. Ainda assim, os caminhos tomados pelas duas nações foram radicalmente diferentes.

Para Kobori, a explicação está no comportamento das elites econômicas.

“O Brasil não tem uma elite que pensa no país”, afirma.

Segundo sua reflexão, reproduzindo um argumento presente na obra de Celso Furtado, parte significativa da elite brasileira jamais teve como prioridade desenvolver uma economia nacional forte, industrializada e integrada socialmente. Bastava manter um padrão de consumo semelhante ao das elites europeias enquanto a produção primária continuava garantindo riqueza e privilégios.

Nos Estados Unidos, entretanto, a disputa econômica entre o Sul escravagista e o Norte industrializante acabou moldando outro projeto de nação. Enquanto o Sul permanecia dependente da exportação de algodão bruto, o Norte defendia agregar valor à produção por meio da industrialização.

A divergência ajudou a desencadear a Guerra de Secessão e consolidou, posteriormente, uma estratégia de fortalecimento da indústria nacional. Kobori cita o papel de Alexander Hamilton, um dos formuladores do pensamento econômico norte-americano, defensor da proteção à indústria e da redução da dependência de commodities.

O resultado histórico é conhecido: os Estados Unidos participaram ativamente da Revolução Industrial e se transformaram em uma potência econômica. O Brasil, por outro lado, permaneceu durante décadas preso ao modelo primário-exportador.

Kobori também menciona a influência liberal do Visconde de Cairu, defensor do “laissez-faire” — resumido na expressão “deixar comprar, deixar vender, deixar fazer” — como uma visão que teria reforçado a vocação brasileira de exportadora de matérias-primas sem preocupação efetiva com industrialização ou distribuição de renda.

A crítica do analista ganha peso justamente no contexto atual. Em meio às discussões sobre o fim da escala 6×1, valorização salarial e fortalecimento dos direitos trabalhistas, cresce a percepção de que parte do empresariado brasileiro ainda enxerga o trabalhador apenas como custo operacional, e não como peça central do desenvolvimento econômico.

A própria lógica econômica mencionada por Kobori aponta nessa direção: sem renda circulando entre a população, o mercado consumidor enfraquece, a economia perde dinamismo e o país limita sua capacidade de crescimento sustentável.

“Quando menos a classe trabalhadora ganhar, mais lucro eles vão ter”, critica Kobori ao comentar a mentalidade predominante em setores da elite econômica.

A reflexão expõe uma contradição histórica brasileira: enquanto países desenvolvidos construíram mercados internos fortes, com industrialização, consumo e valorização do trabalho, o Brasil frequentemente apostou em ganhos imediatos baseados na concentração de renda, na exportação de commodities e em mão de obra barata.

O debate ganha ainda mais relevância num cenário em que trabalhadores reivindicam não apenas salários melhores, mas também qualidade de vida, saúde mental, tempo de descanso e participação mais justa nos resultados da economia.

Mais do que uma crítica ideológica, a fala de José Kobori recoloca em pauta uma pergunta que acompanha o Brasil há séculos: é possível construir um país desenvolvido sem investir de fato na valorização de quem trabalha?

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