Índice da Condição do Trabalho alcança o melhor resultado da série recente, mas crescimento de vínculos precários e concentração da renda ainda comprometem a qualidade do emprego no Brasil.
O mercado de trabalho brasileiro continua apresentando sinais de recuperação, mas a qualidade dos empregos ainda está longe de acompanhar esse avanço. Embora o número de trabalhadores ocupados aumente e a renda apresente crescimento, a expansão de formas precárias de contratação segue limitando uma melhora mais consistente das condições de trabalho.
Esse é o principal alerta do novo Índice da Condição do Trabalho (ICT-Dieese), divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O levantamento mostra que o indicador atingiu 0,75 no primeiro trimestre de 2026, o melhor resultado da série recente e superior aos 0,70 registrados no último trimestre de 2025. Como o índice varia de 0 a 1, quanto mais próximo de 1, melhores são as condições do mercado de trabalho.
Apesar da evolução, o Dieese ressalta que o país ainda convive com problemas estruturais que impedem uma recuperação mais robusta. Entre eles estão o crescimento das ocupações com menor proteção trabalhista e previdenciária, a elevada rotatividade e a persistência da concentração da renda.
Não basta gerar empregos
O estudo reforça que o desafio atual deixou de ser apenas criar vagas. A preocupação passa a ser a qualidade dessas ocupações.
Segundo o Dieese, a expansão do emprego formal continua sendo um dos principais motores da melhora do mercado de trabalho. Trabalhadores com carteira assinada contam com maior estabilidade, proteção previdenciária e acesso aos direitos previstos na legislação.
Ao mesmo tempo, porém, cresce o número de trabalhadores inseridos em modalidades mais frágeis de contratação, muitas vezes marcadas por menor proteção social e insegurança quanto à continuidade da renda. Esse movimento reduz o impacto positivo da formalização e impede que o mercado avance com maior velocidade.
Indicador vai além do desemprego
Diferentemente da taxa de desemprego, o ICT-Dieese procura medir a qualidade do mercado de trabalho como um todo.
O índice considera três grandes dimensões:
- Inserção Ocupacional, que avalia formalização dos vínculos, contribuição à Previdência e estabilidade no emprego;
- Desocupação, que reúne informações sobre desemprego, desalento e desemprego de longa duração; e
- Rendimento, que mede o rendimento real por hora trabalhada e o grau de concentração da renda.
A combinação desses fatores permite avaliar não apenas quantas pessoas estão trabalhando, mas também em que condições trabalham e como a renda é distribuída entre elas.
Formalização impulsiona melhora
A dimensão Inserção Ocupacional apresentou um dos maiores avanços do levantamento, passando de 0,54 para 0,62.
O resultado foi impulsionado principalmente pelo crescimento do emprego com carteira assinada, considerado um dos principais fatores de fortalecimento do mercado de trabalho brasileiro nos últimos anos.
Mesmo assim, o Dieese observa que a expansão das ocupações precárias continua reduzindo o ritmo dessa melhora.
Salários recuperam poder de compra
Outro destaque positivo foi o comportamento da renda dos trabalhadores.
A dimensão Rendimento subiu de 0,68 para 0,75, refletindo o aumento do rendimento real por hora trabalhada e uma discreta redução da concentração dos rendimentos.
De acordo com o estudo, esse desempenho foi favorecido pela inflação mais controlada, pelos reajustes salariais conquistados em negociações coletivas acima da inflação e pelo fortalecimento do mercado de trabalho, que amplia o poder de negociação dos trabalhadores.
Embora a desigualdade salarial permaneça elevada, o Dieese considera positiva a pequena melhora na distribuição dos rendimentos.
Desemprego permanece em nível baixo
A dimensão Desocupação apresentou leve recuo, passando de 0,88 para 0,87.
Segundo o Dieese, essa pequena queda decorre do aumento da taxa de desemprego e do desalento observado no início do ano. Por outro lado, diminuiu proporcionalmente o número de trabalhadores em situação de desemprego de longa duração, amenizando o impacto negativo do indicador.
Recuperação continua
Na média dos quatro últimos trimestres, o ICT-Dieese mantém trajetória consistente de crescimento.
O estudo aponta que a recuperação continua sendo sustentada por três fatores principais:
- redução das taxas de desemprego e desalento;
- crescimento do emprego formal; e
- aumento do rendimento real dos trabalhadores.
Para a entidade, esses elementos demonstram que a melhora não é apenas conjuntural, mas resultado de um processo gradual de fortalecimento do mercado de trabalho.
Combate à precarização
Apesar dos avanços, o Dieese conclui que o Brasil ainda precisa enfrentar um dos maiores obstáculos para consolidar um mercado de trabalho mais justo: a precarização das relações de trabalho.
O crescimento de vínculos com menor proteção social, associado à elevada concentração da renda, impede que os ganhos econômicos se transformem em melhores condições de vida para toda a classe trabalhadora.
Na avaliação da entidade, o país já demonstra capacidade de gerar empregos e ampliar a renda. O próximo passo deve ser garantir que essas vagas sejam acompanhadas de direitos, estabilidade, proteção previdenciária e remuneração mais equilibrada.
Principais resultados do ICT-Dieese
- ICT-Dieese: 0,75 no primeiro trimestre de 2026;
- Alta de 0,05 ponto em relação ao quarto trimestre de 2025;
- Alta de 0,07 ponto na comparação com o primeiro trimestre de 2025;
- Inserção Ocupacional: de 0,54 para 0,62;
- Rendimento: de 0,68 para 0,75;
- Desocupação: de 0,88 para 0,87.
O levantamento deixa uma mensagem clara: o mercado de trabalho brasileiro continua avançando, mas a recuperação somente será completa quando o crescimento vier acompanhado da redução da precarização, da ampliação da proteção social e de uma distribuição mais justa da renda produzida pelos trabalhadores.
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