A dez dias do recesso parlamentar, a PEC que extingue a jornada 6×1 esbarra na liturgia do Senado. Diante da cobrança popular e do tique-taque do relógio, a presidência da Casa se ancora no “devido processo” para camuflar o que parece ser pura conveniência política.
O tempo na política brasileira tem uma física própria. Ele se move na velocidade da luz quando há interesse do mercado ou urgência do Executivo em aprovar pautas econômicas de interesse das elites. No entanto, o mesmo relógio passa a operar em ritmo de quase paralisia quando o tema em debate é o descanso, a dignidade e a saúde mental da classe trabalhadora.
Faltando escassos dez dias para o início do recesso parlamentar, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa pôr fim à extenuante escala 6×1 encontra-se exatamente nesse estado de suspensão criogênica. Apoiada por mais de 70% da população e empurrada pela clamor das ruas, a matéria repousa há mais de um mês na mesa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), aguardando um simples despacho.
Ofensa Fardada
Nesta terça-feira, o silêncio obsequioso deu lugar a uma ruidosa nota oficial. Ao ser cobrado publicamente pelo líder do PT, deputado Pedro Uczai (SC) — que alertou que a inércia transformaria o presidente do Senado em um “inimigo dos trabalhadores” —, Alcolumbre reagiu com a habitual altivez dos palácios. Classificou a fala como “ameaça” e “tentativa de intimidação”, blindando-se atrás das prerrogativas do cargo.
“Ameaças e constrangimentos institucionais não aceleram a tramitação; apenas afrontam a independência dos Poderes”, declarou a presidência do Senado.
A retórica é elegante, mas esbarra na realidade factual. O que a nota de Alcolumbre tenta carimbar como “afronta institucional” é, na verdade, o legítimo e desesperado exercício da pressão política. Ao se dizer ofendido pelo tom da cobrança, o senador muda o foco do debate: deixa-se de discutir a exaustão de milhões de brasileiros que doam seis dias da sua semana ao trabalho para se discutir o “brio” e o “decoro” da Mesa Diretora.
O Interesse de quem?
Quando Alcolumbre evoca o “interesse do Parlamento” e o respeito ao “devido processo legislativo” para justificar o cozimento em banho-maria da PEC, cabe a pergunta inevitável: a qual interesse o Parlamento serve neste momento?
- O interesse público já foi manifestado em redes sociais, abaixo-assinados e pesquisas de opinião. A sociedade quer o fim da escala 6×1.
- O interesse dos trabalhadores é o de ter tempo para a família, para o estudo e para a vida.
- O interesse do setor empresarial e da ala conservadora do Congresso, contudo, é o de esticar a corda o máximo possível, apostando no esvaziamento do debate que o recesso junino/julino naturalmente traz.
Ao segurar o texto por semanas, sob o pretexto de promover o “diálogo” — como a reunião recente com centrais sindicais e a liderança do governo —, Alcolumbre cumpre um papel clássico da nossa política: o de mediador que imobiliza. Dialoga-se para não decidir; debate-se para que o tempo acabe.
O Relógio Não Espera
A trégua prometida pela base governista é o último suspiro de uma articulação que vê o recesso no horizonte como um muro de contenção. Se a PEC não for despachada para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) nos próximos dias, o clamor popular será forçado a entrar em férias coletivas por vias burocráticas.
A história parlamentar é implacável com os omissos. Davi Alcolumbre pode até se proteger sob o manto da “independência dos Poderes” para rejeitar cobranças duras, mas o julgamento das ruas não se submete ao regimento interno do Senado. Se a escala 6×1 sobreviver a mais este semestre por pura inércia da cadeira presidencial, ficará evidente que a Casa do Povo escolheu, mais uma vez, as dores do mercado em detrimento da vida de quem trabalha.
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