A dificuldade de contratação e permanência de trabalhadores na hotelaria e no turismo de Foz do Iguaçu tem revelado uma mudança importante no perfil da categoria. Para o Sindicato dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade de Foz do Iguaçu (STTHFI), o problema vai muito além dos salários (piso subiu em maio/26 para R$ 2.321,40) e está diretamente ligado ao desgaste provocado pela escala 6×1, considerada cada vez mais incompatível com qualidade de vida e convivência familiar.
Segundo o presidente do sindicato, Vilson Osmar Martins, muitos profissionais têm deixado hotéis, restaurantes e demais atividades do setor em busca de jornadas menos exaustivas, mesmo que isso signifique reduzir a renda mensal. O dirigente cita casos de trabalhadores que abriram mão de salários considerados altos para os padrões da categoria apenas para recuperar finais de semana e feriados ao lado da família. Vilson Martins informa que o Sindicato está quase concluindo negociação de T.A. implantado 2 domingos para as mulheres. “Estamos insistindo ainda para os homens também, mas o patronal resiste. Até final do mês devemos concluír”, destaca.
A discussão ganhou força com a realização do seminário promovido em Foz do Iguaçu pela comissão especial da Câmara dos Deputados que debate a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas e o fim da escala 6×1 sem redução salarial. O tema passou a ocupar espaço central nas reivindicações dos trabalhadores do turismo e da hospitalidade, setores que tradicionalmente operam em horários diferenciados, incluindo noites, feriados e finais de semana.
De acordo com Vilson Osmar Martins, o trabalhador já não aceita mais viver permanentemente em regime de escalas contínuas, sem tempo adequado para descanso, lazer e convivência social. Para a entidade, esse modelo operacional contribui diretamente para a alta rotatividade e para a dificuldade de preenchimento de vagas em hotéis, bares, restaurantes e serviços ligados ao turismo.
Atualmente, o piso salarial da hotelaria em Foz do Iguaçu está em R$ 2.321,40, um dos maiores do país dentro do segmento, segundo o sindicato. Em algumas funções, a taxa de serviço pode elevar significativamente a remuneração mensal, acrescentando valores entre R$ 1 mil e R$ 4,5 mil aos salários. Ainda assim, a remuneração já não tem sido suficiente para manter profissionais no setor diante do desgaste físico e emocional provocado pela jornada extensa.
Os números do mercado de trabalho reforçam essa transformação. Dados recentes mostram crescimento do emprego formal em Foz do Iguaçu, que passou de 65,3 mil vínculos em 2023 para cerca de 71 mil em março de 2026. Ao mesmo tempo, houve aumento expressivo no número de microempreendedores individuais (MEIs), que saltou de 29,7 mil para 35,1 mil no mesmo período.
Para o sindicato, esse avanço do trabalho autônomo demonstra que muitos trabalhadores passaram a buscar alternativas com maior liberdade de horário e melhores condições de vida. Outro dado que chama atenção é o crescimento de quase 20% nos pagamentos de seguro-desemprego no município, indicador que revela aumento da rotatividade mesmo em um cenário de aquecimento econômico e crescimento do turismo.
A hotelaria de Foz do Iguaçu mantém elevados índices de ocupação, com média superior a 73% e picos próximos de 93% em feriados prolongados. Apesar disso, empresas continuam relatando dificuldades para contratar recepcionistas, camareiras, trabalhadores da cozinha, governança, atendimento e serviços gerais.
Para representantes dos trabalhadores, a discussão sobre a redução da jornada se tornou inevitável. A avaliação é que o setor precisará avançar não apenas em salários, mas também em condições de trabalho, escalas mais humanizadas e valorização profissional.
O debate sobre o fim da escala 6×1 segue em tramitação na Câmara dos Deputados e mobiliza centrais sindicais em todo o país. Em Foz do Iguaçu, o tema ganhou força justamente por atingir uma das principais bases da economia local: o turismo e a hotelaria, atividades que dependem diretamente da permanência e da qualificação dos trabalhadores.
*********





