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Mulheres são maioria nas urnas, mas ainda minoria nos espaços de poder

Com mais de 83 milhões de eleitoras e 7,3 mil candidatas, Eleições 2026 podem ampliar a presença feminina no Congresso; avanço, porém, depende de votos, financiamento e apoio efetivo dos partidos.

As mulheres chegam às Eleições 2026 como a maior força eleitoral do Brasil. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o país tem 83.877.126 eleitoras, equivalentes a 52,84% das pessoas aptas a votar. São pouco mais de 9 milhões de mulheres a mais que homens no eleitorado. Apesar dessa maioria expressiva, a presença feminina nos espaços de decisão política continua muito distante da igualdade.

A plataforma Confia Nelas, que reúne candidaturas femininas registradas nas 27 unidades da Federação, contabiliza 7.355 mulheres concorrendo aos diferentes cargos. O número pode sofrer alterações durante o período eleitoral, em razão de impugnações, renúncias, substituições e decisões da Justiça Eleitoral. Levantamentos feitos diretamente na base do TSE, em momentos anteriores, indicavam entre 7.138 e 7.156 candidaturas femininas. A diferença decorre justamente da atualização permanente dos registros.

Mesmo considerando o dado mais recente da plataforma, as mulheres representam pouco mais de um terço das candidaturas. Levantamento realizado a partir dos registros do TSE mostrou que elas correspondiam a aproximadamente 35% dos nomes apresentados pelos partidos, embora sejam maioria entre os eleitores. Nos cargos mais poderosos, a desigualdade torna-se ainda mais visível: as mulheres representavam somente cerca de 15% das candidaturas à Presidência, 16% das candidaturas aos governos estaduais e 22% das candidaturas ao Senado. (UOL)

A representação atual

Na Câmara dos Deputados, as mulheres ocupam aproximadamente 91 das 513 cadeiras, ou 17,7% do total. No Senado, a bancada feminina atualmente reúne 15 senadoras entre os 81 integrantes da Casa, correspondente a cerca de 18,5%. Somadas as duas casas, são aproximadamente 106 mulheres entre 594 parlamentares, pouco menos de 18% do Congresso Nacional. (Senado Federal)

No Poder Executivo, a desigualdade é ainda maior. O Brasil nunca elegeu mais de duas governadoras simultaneamente. Depois da saída de Fátima Bezerra do governo do Rio Grande do Norte para disputar o Senado, Raquel Lyra, de Pernambuco, tornou-se a única mulher no comando de um dos 26 estados. O país também não tem atualmente uma mulher na Presidência da República.

Considerando a Presidência e os governos das 27 unidades federativas, a presença feminina entre as chefias do Executivo é, portanto, residual. Essa realidade contrasta com o fato de o Brasil já ter tido uma mulher na Presidência, Dilma Rousseff, e com o crescimento da presença feminina em ministérios, secretarias, prefeituras, câmaras municipais e movimentos sociais.

Senado pode registrar avanço

A eleição deste ano renovará 54 das 81 cadeiras do Senado, duas por unidade federativa. Ao todo, 69 mulheres disputam uma vaga, maior número desde 2018. Ainda assim, elas representam somente 22% das candidaturas à Câmara Alta. (Agência Senado)

As pesquisas mostram mulheres competitivas em alguns dos maiores colégios eleitorais. No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro e Leila Barros aparecem nas primeiras colocações, dentro de um cenário de empate técnico. Em São Paulo, Simone Tebet e Marina Silva já dividiram a liderança em levantamentos para as duas vagas em disputa. No Tocantins, a senadora Professora Dorinha, atual líder da Bancada Feminina, aparece entre os nomes mais fortes. Em Santa Catarina, Carol de Toni está tecnicamente empatada com os principais concorrentes.

Também há candidatas competitivas em outras unidades federativas, como Gleisi Hoffmann, no Paraná; Zenaide Maia, no Rio Grande do Norte; Eliziane Gama, no Maranhão; Soraya Thronicke, em Mato Grosso do Sul; e Leila Barros, no Distrito Federal. Nem todas lideram isoladamente, mas aparecem em condições reais de disputar uma das duas vagas.

Esse conjunto abre a possibilidade de crescimento da bancada feminina do Senado. Ainda não é possível, entretanto, calcular com segurança quantas serão eleitas. Pesquisas registram o momento em que foram realizadas, possuem margem de erro e não constituem previsão definitiva do resultado.

No Executivo, Raquel Lyra concentra as atenções

Entre as disputas estaduais, o caso mais destacado é o de Pernambuco. A governadora Raquel Lyra busca a reeleição e aparece em confronto direto com João Campos. Pesquisa AtlasIntel divulgada em 17 de setembro mostrou Raquel com 48,7%, contra 45,6% de Campos no primeiro turno. Na simulação de segundo turno, ela alcançou 51,1%, diante de 47,3% do adversário. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, o cenário é de empate técnico. (UOL)

Outros levantamentos também apontam uma disputa apertada. Datafolha e Quaest chegaram a colocar Raquel numericamente à frente, enquanto pesquisas anteriores mostravam vantagem de João Campos. Pernambuco poderá, portanto, definir se o Brasil continuará tendo ao menos uma mulher entre os governadores a partir de 2027.

Na corrida presidencial, o quadro é menos favorável. Embora existam candidaturas femininas registradas, nenhuma aparece até agora entre os nomes que lideram as pesquisas nacionais. Isso revela que o avanço quantitativo das candidaturas ainda não se transformou em igualdade de condições para a disputa dos cargos mais importantes.

Por que os homens continuam sendo mais eleitos?

A explicação começa na própria história. As brasileiras conquistaram o direito ao voto somente em 1932 e, durante décadas, a política foi organizada como um ambiente predominantemente masculino. Os homens ocuparam os partidos, formaram redes de apoio, acumularam mandatos e passaram a controlar boa parte das estruturas partidárias e dos recursos de campanha.

Esse domínio histórico produz vantagens que se renovam a cada eleição. Parlamentares que já possuem mandato contam com maior exposição pública, equipes, alianças, bases eleitorais e facilidade para arrecadar recursos. Como a maioria dos atuais ocupantes é masculina, os homens entram novamente na disputa em posição privilegiada.

As mulheres também enfrentam dificuldades adicionais: menor acesso ao financiamento, resistência dentro dos próprios partidos, sobrecarga com o trabalho doméstico e os cuidados familiares, ataques à vida pessoal, assédio, ameaças e violência política de gênero. Em muitos casos, a exigência legal de um mínimo de 30% de candidaturas por sexo é tratada pelos partidos como teto, e não como ponto de partida. Algumas candidatas são registradas sem estrutura suficiente para realizar uma campanha competitiva.

Por isso, não basta lançar mulheres apenas para cumprir a legislação. É necessário garantir recursos, tempo de propaganda, formação política, segurança e participação efetiva nas decisões partidárias.

Existe uma tendência de voto feminino?

Há sinais de maior disposição do eleitorado para apoiar candidaturas femininas, especialmente quando as candidatas possuem trajetória pública conhecida, propostas consistentes e condições reais de campanha. Temas como igualdade salarial, saúde, educação, creches, proteção social, combate à violência, geração de empregos e valorização do trabalho ajudam a aproximar muitas candidatas das preocupações cotidianas da população.

Isso não significa, entretanto, que mulheres votem automaticamente em mulheres ou que toda candidatura feminina represente os mesmos projetos. As eleitoras, assim como os eleitores, estão distribuídas por diferentes partidos, classes sociais, religiões e posições ideológicas. Uma candidata deve ser avaliada por sua história, seus compromissos, suas propostas e por sua posição diante dos direitos sociais e trabalhistas.

A maior procura por lideranças femininas também pode representar uma reação à política tradicional. Muitas eleitoras e eleitores enxergam na ampliação da participação das mulheres uma oportunidade de renovar práticas, trazer novas experiências para o debate público e colocar no centro das decisões problemas que durante muito tempo foram relegados a segundo plano.

Mas é preciso evitar outro estereótipo: mulheres não são naturalmente mais honestas, sensíveis ou competentes apenas por serem mulheres. A defesa da representação feminina não se sustenta em uma suposta superioridade moral, mas no princípio democrático de que mais da metade da população não pode continuar ocupando menos de um quinto das cadeiras onde as leis e os orçamentos são decididos.

A decisão está nas urnas

As Eleições 2026 podem produzir um novo recorde de mulheres eleitas, sobretudo no Senado. Na Câmara dos Deputados, porém, qualquer previsão é mais arriscada, porque o resultado depende também do desempenho dos partidos, das federações e dos quocientes eleitorais em cada estado. No Executivo estadual, o cenário ainda indica poucas mulheres em condições de vitória.

O crescimento não está garantido apenas pelo número de candidaturas. Dependerá da competitividade dessas campanhas, da distribuição dos recursos partidários e, principalmente, da escolha dos mais de 158 milhões de brasileiros aptos a votar.

As mulheres já são maioria nas urnas. O desafio de 2026 é verificar se essa força eleitoral finalmente começará a aparecer, em proporção mais justa, também no Parlamento e no Executivo. Para o trabalhador e a trabalhadora, a orientação continua sendo a mesma: analisar cada candidatura, conhecer sua trajetória e verificar quais nomes assumem compromissos claros com os direitos sociais, a democracia, a igualdade, o emprego digno e o fortalecimento da organização sindical.

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