Enquanto cresce no Congresso Nacional o debate sobre o fim da tradicional jornada 6×1 — modelo em que o trabalhador tem apenas um dia de folga após seis dias consecutivos de trabalho — algumas empresas brasileiras começam a testar formatos mais flexíveis. Em São Paulo, a rede de cafeterias e escola de cafés Coffee Lab decidiu ir além das discussões e implantou, há oito meses, a escala 4×3 para seus funcionários, garantindo três dias de descanso por semana.
A experiência, segundo a empresária Isabela Raposeiras, fundadora da marca, vem trazendo resultados positivos tanto para os trabalhadores quanto para o desempenho financeiro da empresa. De acordo com ela, o faturamento da rede cresceu 35% no último ano, acompanhado também de aumento da margem de lucro e redução de custos operacionais, especialmente com transporte.
“Conseguimos crescer sem reduzir salários e mantendo a mesma estrutura de lojas e equipes. O diferencial foi melhorar a organização, o fluxo de atendimento e tornar toda a operação mais eficiente”, afirma.
Descanso e produtividade
O modelo adotado pela Coffee Lab funciona em sistema rotativo. As unidades permanecem abertas todos os dias da semana, mas os funcionários trabalham apenas quatro dias, com direito a três folgas semanais — sendo pelo menos duas consecutivas. A jornada diária segue abaixo de dez horas, já incluindo almoço e intervalos.
Segundo Isabela, a mudança exigiu planejamento e revisão dos processos internos, mas os ganhos apareceram rapidamente. Ela acredita que trabalhadores mais descansados e satisfeitos entregam melhores resultados.
“O bem-estar influencia diretamente na produtividade. Quando as pessoas têm mais tempo para descansar, cuidar da vida pessoal e sair da rotina exaustiva do transporte público diário, elas trabalham melhor, atendem melhor e produzem mais”, explica.
A empresária lembra ainda que viveu, no passado, a realidade da escala 6×1, chegando a cumprir jornadas superiores a 12 horas diárias. Para ela, o novo modelo representa uma mudança importante na relação entre trabalho e qualidade de vida.
“As horas extras e o banco de horas não compensam o desgaste físico e mental. Ter três dias para descansar ou simplesmente viver outras experiências faz diferença na saúde e na motivação das pessoas”, destaca.
Debate avança
A experiência da cafeteria paulista surge justamente em um momento em que sindicatos, especialistas e parlamentares ampliam o debate sobre a necessidade de rever a jornada de trabalho no país. O modelo 6×1 é frequentemente criticado por trabalhadores de setores como comércio, turismo, hotelaria, bares e restaurantes, onde a rotina intensa e o desgaste físico costumam ser maiores.
Defensores da redução da jornada argumentam que escalas mais humanas ajudam a diminuir afastamentos por problemas de saúde, reduzem o estresse e podem até aumentar a produtividade. Já setores empresariais demonstram preocupação com custos operacionais e dificuldades de adaptação, principalmente em pequenas empresas.
Mesmo assim, experiências como a da Coffee Lab passam a chamar atenção por mostrar que, com reorganização interna e planejamento, modelos alternativos podem ser economicamente viáveis e trazer benefícios tanto para empresas quanto para trabalhadores.
O tema promete continuar no centro das discussões sobre relações de trabalho e qualidade de vida no Brasil nos próximos meses.
Fonte: nd+, por Luciana Barros e fotos AB
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