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Editorial: Congresso mais à direita, trabalhadores sob maior pressão

O primeiro turno deixou um alerta que ultrapassa a disputa pela Presidência da República: o Congresso que assumirá em fevereiro de 2027 terá uma correlação de forças ainda mais favorável à direita. Para quem depende do salário, da proteção trabalhista e da negociação coletiva, esse resultado exige atenção. Independentemente de quem vencer o segundo turno, a defesa dos direitos encontrará um Parlamento com maior presença de forças que questionam a organização sindical e defendem a flexibilização das relações de trabalho.

Os números ajudam a dimensionar a mudança. Segundo levantamento da Folha de S. Paulo, que utiliza uma metodologia de classificação dos partidos, a direita passará de aproximadamente 57% para 59% da Câmara, reunindo 303 dos 513 deputados. A esquerda permanecerá com cerca de 24%, ou 124 parlamentares, enquanto o centro recuará de 19% para 17%, com 86 cadeiras. O avanço percentual é relativamente pequeno, mas vem acompanhado do fortalecimento do PL, que passa de 98 deputados na composição atual para 121 eleitos.

No Senado, a concentração é mais expressiva. O PL deverá passar de 15 para 28 integrantes, ocupando aproximadamente 35% das 81 cadeiras. A projeção da Agência Senado aponta o PT com nove senadores e o MDB com oito. Embora mudanças partidárias e substituições ainda possam alterar esses números até a posse, o quadro indica uma bancada conservadora com muito mais peso nas decisões e na disputa pelo comando da Casa.

Esses resultados não permitem afirmar que cada parlamentar votará contra os trabalhadores. Permitem, porém, identificar um ambiente mais difícil para reivindicações que dependem de enfrentar interesses empresariais. Mais cadeiras significam maior influência sobre as comissões, as relatorias e a definição das pautas. Para o movimento sindical, nossa avaliação é que o risco aumenta tanto pela possibilidade de novas medidas de flexibilização quanto pelo bloqueio de propostas de proteção social.

A experiência de 2017 continua sendo uma referência desse temor. A reforma trabalhista foi apresentada como modernização, mas deixou ao movimento sindical a tarefa de combater o enfraquecimento da representação coletiva e os efeitos de modalidades de contratação que transferem insegurança ao trabalhador. Quem vive de salário conhece a distância entre a promessa de liberdade para negociar e a realidade de precisar aceitar uma condição desfavorável para garantir o sustento.

Em turismo e hospitalidade, essa desigualdade aparece no cotidiano. Está na jornada de quem trabalha enquanto os demais descansam, na pressão por produtividade, na dificuldade de conciliar emprego e família e na resistência ao descanso adequado. Para essas categorias, uma convenção coletiva pode representar diferenças concretas na remuneração, nos benefícios e nas condições de trabalho. Enfraquecer sua construção significa reduzir a capacidade de proteção de quem já negocia em posição desigual.

É nesse contexto que merece atenção a orientação sindical do programa de Flávio Bolsonaro. Em análise publicada pela Contee, o consultor jurídico José Geraldo de Santana Oliveira identifica ataques à unicidade, ao custeio e à participação dos sindicatos na formulação de políticas públicas. O documento, conforme os trechos reproduzidos pelo jurista, apresenta as entidades e seus dirigentes como obstáculos aos interesses dos próprios trabalhadores. Trata-se de uma orientação que precisa ser examinada por suas consequências, para além da retórica eleitoral.

Defender o trabalhador enquanto se desqualifica sua organização coletiva é uma contradição que merece ser exposta. Sindicatos devem prestar contas, ouvir suas bases e corrigir falhas. Isso não justifica tratar a representação sindical como inimiga. Um empregado isolado, diante de uma empresa que controla sua contratação e sua permanência no emprego, não dispõe da mesma força de uma categoria organizada.

Também preocupa a disposição anunciada de promover mudanças na Constituição aproveitando o novo quadro parlamentar. As propostas divulgadas incluem alterações institucionais e outras reformas; isso não autoriza afirmar que direitos específicos já estejam condenados à extinção. Autoriza cobrar clareza sobre qualquer iniciativa que alcance as garantias sociais. Mudanças constitucionais exigem 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos em cada Casa. O PL, sozinho, não possui esses números e dependerá de alianças.

O temor do movimento sindical, portanto, deve ser tratado com seriedade, sem transformar riscos em fatos consumados. Se Lula vencer, terá de negociar com um Congresso mais à direita. Se Flávio vencer, encontrará uma bancada própria fortalecida para buscar apoio à sua agenda. A composição parlamentar já está definida em seus elementos principais, e seus efeitos acompanharão os trabalhadores durante os próximos anos.

Não se trata de orientar o voto, mas de observar quem poderá sentir na carne as decisões tomadas em Brasília. O fim da escala 6×1, o descanso, a valorização salarial e a proteção contra a precarização dependem também de deputados e senadores. Nenhum presidente governa sozinho, e nenhuma promessa substitui a fiscalização dos mandatos.

O novo Congresso merece vigilância desde o primeiro dia. Cada proposta deve ser examinada pelo que produz na vida real: melhora a renda, preserva a saúde e fortalece a negociação ou transfere mais riscos para quem trabalha? Conquistas históricas não podem ser reduzidas a despesas incômodas nas contas empresariais. São parte da dignidade de milhões de brasileiros — e sua defesa continuará sendo uma responsabilidade permanente do movimento sindical.

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