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Clátia Vieira defende ação sindical permanente pela saúde das trabalhadoras

Sindicalista destaca o combate ao racismo, o acesso ao diagnóstico e a participação das mulheres nas decisões sobre políticas públicas e orçamento.

A defesa da saúde das trabalhadoras precisa ultrapassar o calendário do Outubro Rosa e se transformar em compromisso permanente do movimento sindical e do poder público. Essa foi a mensagem central da sindicalista e advogada Clátia Vieira, mestre em Relações Étnico-Raciais e coordenadora do Fórum Nacional de Mulheres Negras, durante a programação promovida pela CONTRATUH. Ao abordar o tema “Outubro Rosa e o Olhar das Trabalhadoras”, ela defendeu que a conscientização seja acompanhada de ações capazes de enfrentar as desigualdades no acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento do câncer de mama.

Na avaliação de Clátia, a campanha deve estimular uma reflexão pública que continue nos demais meses do ano. A mobilização ganha sentido quando ajuda a identificar obstáculos, cobrar responsabilidades e construir respostas para as necessidades das mulheres. O câncer não termina em outubro, assim como não podem terminar as iniciativas de proteção à vida e à saúde.

A palestrante ressaltou que o compromisso sindical com as trabalhadoras precisa alcançar também a vida para além do emprego. As condições de saúde, as responsabilidades familiares e as dificuldades para acessar serviços públicos fazem parte dessa realidade e devem integrar a formação e a atuação das entidades. Para ela, essa agenda exige presença cotidiana e ações que ultrapassem os espaços de discussão sindical.

Clátia também defendeu o fortalecimento da participação feminina nos espaços de decisão. Ao buscar representação e apresentar suas demandas, as mulheres exercem o direito de participar da construção das políticas que afetam suas vidas. Nessa perspectiva, suas necessidades precisam ocupar posição prioritária na atuação sindical e no diálogo com o poder público.

A presença da cor rosa em campanhas e ambientes foi apresentada como um convite a perguntas concretas: onde estão os mamógrafos? Os exames estão acessíveis às mulheres que vivem longe dos grandes centros? Que respostas recebem aquelas que precisam de atendimento e não conseguem realizá-lo? Para a sindicalista, a visibilidade da campanha precisa vir acompanhada da cobrança por serviços disponíveis e atendimento em tempo adequado.

Um dos pontos centrais da exposição foi a desigualdade racial. Clátia destacou que as mulheres não enfrentam as mesmas condições de acesso à saúde e que o racismo estrutural precisa ser reconhecido para que suas consequências sejam enfrentadas. Na abordagem da palestrante, a realidade das mulheres negras exige atenção específica, considerando as barreiras que se acumulam na vida profissional, na renda e no atendimento pelos serviços públicos.

Esse reconhecimento deve começar também dentro das entidades sindicais. Ela propôs que os sindicatos conheçam melhor as mulheres negras de suas categorias, identifiquem suas condições de trabalho e as dificuldades enfrentadas por aquelas que estão desempregadas. Conhecer essa realidade é um passo para construir uma representação que acolha suas necessidades e transforme suas experiências em propostas de ação.

Na saúde, Clátia defendeu que a política antirracista esteja presente em todas as etapas do atendimento. Isso envolve acolhimento respeitoso, escuta e consideração das necessidades de cada paciente. A existência de legislação e de direitos reconhecidos, observou, precisa ser acompanhada de mobilização para que essas garantias sejam cumpridas na prática.

A demora nos exames e no diagnóstico também foi apontada como uma questão que exige acompanhamento. Para a palestrante, é necessário aproximar as políticas públicas das mulheres que encontram dificuldade para serem ouvidas e compreendidas. Identificar essas barreiras permite cobrar providências concretas e evitar que a campanha se limite a recomendações que muitas trabalhadoras não conseguem seguir por falta de acesso.

Outro caminho destacado foi a participação feminina em conselhos, conferências e outros espaços de discussão das políticas públicas. As experiências das trabalhadoras ajudam a revelar problemas e a propor soluções. Essa presença, segundo Clátia, deve incluir o acompanhamento das decisões e a cobrança por resultados.

A sindicalista também chamou a atenção para o orçamento público. Defendeu que as mulheres e suas entidades compreendam e acompanhem instrumentos como o Plano Plurianual (PPA), que organiza diretrizes e objetivos para um período de quatro anos, e a Lei Orçamentária Anual (LOA), que prevê receitas e fixa despesas para cada exercício. A proposta é aproximar esses debates da vida cotidiana: conhecer o planejamento e os recursos destinados à saúde fortalece a cobrança por exames, equipamentos e atendimento.

Nesse sentido, sugeriu iniciativas de formação, como oficinas que expliquem o funcionamento do orçamento e os caminhos de participação. A discussão sobre onde estão os mamógrafos, por exemplo, precisa continuar depois de outubro e alcançar as decisões que determinam a oferta dos serviços.

A exposição reforçou que direito não é favor e que a proteção à saúde exige políticas públicas efetivas. Para Clátia, cabe ao movimento sindical ajudar a identificar as barreiras enfrentadas pelas mulheres, formular reivindicações e cobrar compromissos dos poderes públicos, defendendo as conquistas e impedindo retrocessos.

Na programação da CONTRATUH, o olhar das trabalhadoras trouxe ao Outubro Rosa uma tarefa que permanece depois da campanha: transformar conscientização em participação, fiscalização e acesso ao cuidado. Uma agenda que reconheça as desigualdades e coloque a vida das mulheres no centro das decisões.

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