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60% dos brasileiros acusam que bets aumentam dívidas e viciam

A expansão acelerada das apostas online no Brasil reacendeu um debate antigo, mas ainda inconcluso: afinal, qual modelo de jogo o país quer — e consegue — controlar? Os dados mais recentes ajudam a dimensionar o problema. Pesquisa Meio/Ideia aponta que quase 60% dos brasileiros veem as bets como fator de aumento do endividamento familiar, enquanto 61,9% associam essas plataformas ao vício. Mais ainda: 44% defendem a proibição desse tipo de aposta, contra apenas 24% que rejeitam a medida. Os números escancaram uma percepção social negativa crescente e colocam o tema no centro da agenda econômica e eleitoral.

Não se trata de condenar o apostador, como bem observam os analistas do Instituto Ideia, mas de questionar o modelo que foi permitido avançar no país. Hoje, o Brasil convive com um ambiente difuso, em que plataformas digitais operam com forte apelo comercial, pouca presença física, baixa geração de empregos diretos e desafios evidentes de fiscalização. O resultado é uma espécie de “cassino invisível”, que movimenta bilhões, mas deixa rastros preocupantes no tecido social.

É nesse ponto que o debate sobre a legalização dos cassinos físicos volta à cena — e com força. Defendida historicamente por entidades como a CONTRATUH, a abertura de cassinos no Brasil sempre esteve associada não apenas ao entretenimento, mas a uma estratégia mais ampla de desenvolvimento do turismo e da hospitalidade. Ao contrário das bets, os cassinos integrados a complexos turísticos carregam potencial concreto de geração de empregos formais, arrecadação e dinamização de economias locais.

Especialistas do setor já apontavam, ainda em 2020, que a legalização dos jogos poderia impulsionar uma cadeia produtiva extensa. Não se trata apenas da operação do jogo em si, mas de tudo o que o cerca: hotelaria, gastronomia, eventos, transporte, comércio e serviços. Como destacou o advogado Witoldo Hendrich Junior à época, a abertura desse mercado envolve desde a fabricação de mobiliário até a contratação de profissionais em diversas áreas. É uma engrenagem econômica que dialoga diretamente com o perfil do trabalhador representado pela CONTRATUH.

Além disso, há um fator que segue ignorado no debate público: o dinheiro que já sai do Brasil. Brasileiros continuam viajando para países vizinhos em busca de cassinos legalizados, alimentando economias estrangeiras com recursos que poderiam ser investidos internamente. Estimativas do setor indicavam que, com uma regulação bem estruturada, o mercado brasileiro poderia alcançar cifras bilionárias em pouco tempo — algo em torno de US$ 2 bilhões, segundo estudos citados por especialistas internacionais.

A contradição atual é evidente. Enquanto o país assiste ao crescimento desordenado das apostas digitais, com efeitos sociais cada vez mais perceptíveis, segue adiando uma discussão mais estruturada sobre um modelo regulado, presencial e potencialmente mais controlável. Não se trata de romantizar os cassinos, mas de reconhecer que a ausência de regulação eficaz não elimina o jogo — apenas a empurra para formatos menos transparentes e mais difíceis de fiscalizar.

Pare o presidente da Contratuh, Wilson Pereira, “A retomada desse debate exige maturidade política e responsabilidade social. É preciso discutir regras claras, mecanismos de controle, políticas de prevenção ao vício e, sobretudo, contrapartidas concretas em geração de emprego e renda. O setor de turismo e hospitalidade, duramente impactado nos últimos anos, enxerga nessa agenda uma oportunidade real de recuperação e crescimento sustentável.”

Diante de um cenário em que as bets já operam como uma “bomba-relógio socioeconômica”, nas palavras dos pesquisadores, talvez a pergunta mais urgente não seja se o Brasil deve permitir o jogo — porque ele já existe —, mas qual modelo o país está disposto a construir. Entre a informalidade digital e a regulação estruturada, a escolha terá impactos diretos sobre a economia, o trabalho e a própria organização social nos próximos anos.

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