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O Brasil cresce sobre o tempo invisível das mulheres

A rotina de milhões de brasileiras começa antes do amanhecer e se estende até o fim da noite. Entre preparar o café, organizar o material escolar dos filhos, cuidar de idosos e planejar o jantar, elas acumulam tarefas que não aparecem nas estatísticas oficiais, mas sem as quais o país simplesmente não funciona. Esse trabalho invisível, não remunerado e pouco reconhecido, sustenta a economia brasileira há décadas.

Dados da PNAD Contínua do IBGE de 2023 mostram que as mulheres dedicam quase o dobro de horas ao trabalho doméstico e de cuidado em comparação aos homens. Na prática, vivem uma segunda jornada. Estimativas internacionais, baseadas em metodologias da ONU Mulheres e da CEPAL, indicam que esse esforço pode representar mais de 10% do PIB em diversas economias. No Brasil, porém, permanece fora das contas nacionais, reforçando desigualdades: mesmo com maior escolaridade, elas recebem menos e, embora sejam maioria do eleitorado — 52% segundo o TSE em 2024 —, continuam minoria nas prioridades políticas.

A ausência de políticas públicas adequadas transfere custos diretamente para as famílias. Sem creches, mulheres reduzem renda. Sem transporte eficiente, reorganizam o dia. Sem saúde acessível, assumem o cuidado. O que se chama eficiência fiscal, muitas vezes, é apenas a transferência de responsabilidades do Estado para os lares. E essa sobrecarga não é distribuída de forma igual: enquanto mulheres de maior renda conseguem terceirizar parte do cuidado, as de baixa renda enfrentam um verdadeiro aprisionamento econômico, sendo empurradas para fora do mercado de trabalho.

O contraste internacional é evidente. Países que investem em políticas de cuidado ampliam a participação feminina na força de trabalho e melhoram o desempenho econômico. No Brasil, a taxa de participação das mulheres é de 15 a 20 pontos percentuais inferior à dos homens, não por falta de capacidade, mas por falta de tempo. A ONU Mulheres é categórica: redistribuir o cuidado é condição para autonomia econômica.

O debate político, no entanto, segue preso a rótulos ideológicos. A direita fala em responsabilidade fiscal sem considerar quem absorve os custos. A esquerda defende justiça social, mas mantém estruturas ineficientes. Liberais exaltam a liberdade, mas ignoram que liberdade sem tempo é ficção. O resultado é um país que cresce sobre o ativo mais escasso e explorado: o tempo das mulheres.

Maioria nas urnas, elas raramente votam com base em propostas que reduzam sua sobrecarga ou ampliem seu tempo real. A política discute moral, mas é o orçamento que decide quem paga a conta. E, quando há cortes, falhas ou crises, são elas que sustentam o sistema, sem que nenhum indicador registre a exaustão.

O Brasil só avançará quando reconhecer que cuidado é infraestrutura econômica. Políticas fiscais também são políticas de gênero, e crescimento sustentável não pode depender de trabalho invisível. Enquanto isso não acontecer, o país continuará sustentado não apenas por impostos, mas por horas de mulheres que nunca foram contabilizadas.

Fonte: Vero Notícias, por Claudia Maldonado

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