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Adeus ao garçom que virou patrimônio afetivo de Ponta Grossa

Há trabalhadores que cumprem uma função. Outros deixam marca. E existem aqueles raros profissionais que se confundem com a própria história do lugar onde trabalham. Assim foi Albari Mildenberg, garçom da tradicional Churrascaria Expedicionária do Cogo, em Ponta Grossa, falecido nesta quarta-feira (6), aos 77 anos.

A notícia de sua morte encerra não apenas uma trajetória profissional de mais de meio século, mas também um capítulo importante da memória afetiva da cidade. Durante mais de 50 anos de trabalho exclusivo na mesma churrascaria, Albari deixou de ser apenas um funcionário. Tornou-se referência, símbolo de dedicação e rosto conhecido de gerações de clientes que passaram pelas mesas do restaurante.

Num tempo em que empregos duram pouco e relações profissionais se tornam cada vez mais frias e descartáveis, Albari representava o contrário: permanência, compromisso e respeito pela profissão. Seu atendimento não era automático. Havia atenção, elegância, cordialidade e uma simpatia espontânea que transformava clientes em amigos.

Quem frequentava a Expedicionária sabia exatamente quem era Albari. Muitos iam ao restaurante certos de encontrar aquele garçom educado, de fala tranquila, memória impressionante e sorriso permanente. Ele conhecia famílias inteiras, acompanhou aniversários, encontros, comemorações e histórias de vida servidas junto aos tradicionais cortes da churrascaria.

Em Ponta Grossa, cidade marcada pela força do comércio e do setor de serviços, Albari construiu silenciosamente uma carreira exemplar. Sem holofotes, fez da profissão um motivo de orgulho. Mostrou que servir bem é uma arte e que o garçom não é apenas quem leva pratos à mesa, mas quem ajuda a criar experiências, acolhimento e humanidade.

Seu profissionalismo também ultrapassou as portas da churrascaria. Albari teve atuação sindical e participou da diretoria do Sindicato dos Garçons de Ponta Grossa, defendendo a valorização da categoria e o reconhecimento dos trabalhadores da alimentação e hospitalidade — setores muitas vezes invisíveis, apesar de essenciais.

Nos últimos dois anos, estava afastado das atividades para tratamento de saúde em Curitiba. Faleceu na Santa Casa, deixando familiares, amigos, colegas e uma legião de admiradores. Em nota, a Churrascaria Expedicionária lembrou que Albari fazia parte da própria história da casa e recordou a homenagem prestada em 2017, quando completou 50 anos de dedicação ao restaurante.

A homenagem, hoje, ganha outro significado. Porque homens como Albari Mildenberg não são lembrados apenas pelo tempo de serviço, mas pela forma como atravessaram a vida das pessoas.

Sua história ajuda a lembrar algo importante: toda grande cidade também é construída por trabalhadores anônimos que fazem diferença no cotidiano. Gente que acorda cedo, atende com dignidade, conhece pelo nome, escuta problemas, celebra alegrias e transforma o trabalho em missão.

Ponta Grossa perde um garçom. Mas, acima disso, perde um personagem querido, um profissional raro e um homem que honrou sua categoria até o último momento.

E talvez a melhor definição para Albari esteja justamente naquilo que os clientes mais diziam ao entrar na churrascaria:
“Se o Albari estiver atendendo, a gente sabe que será bem recebido.”

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