A discussão sobre o fim da escala 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos e descansa apenas um — voltou ao centro do debate político e econômico no Brasil. A proposta, que prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas sem redução proporcional dos salários, é vista por parlamentares e sindicatos como uma conquista histórica para os trabalhadores. Mas, como ocorreu em momentos anteriores da história trabalhista brasileira — na criação do salário mínimo, do 13º salário e das férias remuneradas —, enfrenta forte resistência do setor empresarial.
O que está em jogo
- Qualidade de vida: Defensores da medida argumentam que mais dias de descanso e jornadas menores podem melhorar a saúde física e mental dos trabalhadores, além de aumentar a produtividade individual.
- Custos para empresas: A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o impacto pode chegar a R$ 180 bilhões para o setor produtivo. Já um estudo do CLP/FGV projeta uma perda de R$ 88 bilhões no PIB e a extinção de cerca de 638 mil empregos formais.
- Setores mais afetados: Comércio, serviços, vigilância e limpeza seriam os mais impactados, com aumento de custos operacionais que podem chegar a 6,6%. Indústria e agronegócio teriam impacto menor, abaixo de 1%.
O contraponto
Apesar das projeções alarmistas, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que o mercado de trabalho brasileiro tem capacidade de absorver a mudança. Os custos adicionais seriam comparáveis aos impactos de reajustes históricos do salário mínimo, que não resultaram em colapso econômico. O estudo sugere que a medida pode ser incorporada sem grandes rupturas, especialmente nos setores de maior produtividade.
O embate político
Quatro propostas de emenda à Constituição (PECs) tramitam no Congresso, incluindo a PEC 8/2025, que formaliza a redução da jornada. O presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já manifestaram apoio à medida, reforçando o coro em favor da mudança.
Lições da história
A resistência empresarial não é novidade. O salário mínimo, o 13º salário e as férias remuneradas também foram alvo de críticas semelhantes, com previsões de aumento de custos e queda na competitividade. No entanto, essas conquistas se consolidaram e hoje são pilares da legislação trabalhista brasileira.
O futuro
O debate sobre o fim da escala 6×1 expõe novamente a tensão entre o avanço dos direitos trabalhistas e a preocupação empresarial com custos e produtividade. Se aprovado, o Brasil pode entrar em uma nova fase de sua história laboral, com impactos que vão além da economia: atingem diretamente a qualidade de vida de milhões de trabalhadores.
Recorrente
O debate recorrente: até que ponto ampliar direitos trabalhistas compromete a competitividade das empresas? A história mostra que medidas como o salário mínimo, o 13º salário e as férias remuneradas também foram alvo de críticas semelhantes, mas acabaram se consolidando como pilares da legislação.
Resistência histórica no Brasil
- Salário mínimo: Empresários alegavam que inviabilizaria pequenas empresas e aumentaria a informalidade. Na prática, tornou-se referência para benefícios previdenciários e ajudou a reduzir desigualdades IEPREV – Instituto de Estudos Previdenciários Cálculos trabalhistas online.
- 13º salário (1962): Foi chamado de “desastre econômico” por setores empresariais. Hoje é visto como essencial para dinamizar o consumo no fim do ano.
- Férias remuneradas (década de 1930): Também enfrentaram resistência, mas se tornaram direito básico e contribuíram para a valorização da força de trabalho.
Esses exemplos mostram que previsões de colapso raramente se confirmam.
Comparativos internacionais

Segundo dados da OIT e estudos recentes:
- Europa: França e Espanha adotam jornadas de 35 a 37 horas semanais. A Bélgica aprovou a semana de quatro dias, ainda restrita a alguns setores, mas com boa aceitação pública G1 G1.
- Estados Unidos: Jornada padrão de 40 horas semanais, com forte cultura de horas extras, mas sem legislação federal sobre férias remuneradas — um contraste importante com o Brasil One Translations.
- China: Jornada oficial de 44 horas, mas com frequência ultrapassada por práticas de “996” (9h às 21h, seis dias por semana), criticadas por impactos na saúde One Translations.
- Países nórdicos: Experimentos com semanas de 30 a 32 horas mostraram ganhos em produtividade e bem-estar, sem perdas significativas para empresas Migalhas.
Impactos esperados
- Para trabalhadores: Mais tempo livre, redução de estresse e potencial aumento de produtividade individual.
- Para empresas: Custos adicionais, especialmente em setores de serviços e comércio, mas comparáveis aos impactos de reajustes históricos do salário mínimo Agência Brasil.
- Para a economia: Estudos indicam que o Brasil pode absorver a mudança, com impactos menores em setores de alta produtividade e maior pressão em atividades intensivas em mão de obra legis.senado.leg.br.
Quadro comparativo
O fim da escala 6×1 no Brasil repete um padrão histórico: resistência empresarial diante de avanços sociais. Mas a experiência internacional mostra que jornadas menores podem ser incorporadas sem comprometer a competitividade, desde que acompanhadas de políticas de produtividade e inovação. Assim como o salário mínimo e o 13º salário, a medida pode se tornar um marco na valorização do trabalho e na melhoria da qualidade de vida.
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