Dados do Dieese revelam que a dupla jornada, composta pelo trabalho remunerado e pelas tarefas domésticas invisíveis, impacta diretamente a qualificação profissional e a ascensão de mulheres ao poder.
Por ano, as mulheres brasileiras trabalham cerca de 21 dias a mais do que os homens. O dado, revelado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), expõe uma realidade persistente no país: a sobrecarga feminina decorrente do acúmulo de atividades domésticas e de cuidado, que muitas vezes não são sequer percebidas ou valorizadas pela sociedade.
A rotina de muitas trabalhadoras começa antes do nascer do sol e se estende muito além do expediente formal. É o caso de Tainá Lima, coordenadora de mídias sociais e mãe solo. Ela relata que, após o trabalho remunerado, inicia-se uma nova jornada não remunerada em casa, que inclui desde preparar o jantar até a organização do lar. Para Tainá, equilibrar essas tarefas com a necessidade de atualização profissional é um desafio constante.
O peso da jornada invisível Diferente do emprego formal, onde há horários de início, término e intervalos regulamentados, o trabalho doméstico e de cuidado não possui “bater de ponto”. Segundo Iesca Costa, professora da Universidade de Brasília (UnB), essa falta de delimitação, somada à ausência de remuneração e reconhecimento, gera um desgaste que vai além do físico.
Essa sobrecarga tem reflexos diretos na carreira:
- Menos horas de estudo: A falta de tempo livre impede o investimento em qualificação.
- Dificuldade em projetos estratégicos: A indisponibilidade de horários limita a participação em funções de liderança.
- Desigualdade salarial: A barreira na ascensão profissional contribui para a manutenção do abismo remuneratório entre gêneros.
Violência e Perspectiva de Gênero
A juíza auxiliar da presidência do TST, Isabela Campos, destaca que o ambiente de trabalho muitas vezes reforça essas desigualdades por meio de assédios moral, sexual e organizacional. Recentemente, a “violência digital” também entrou no radar, caracterizada pela hiperconexão imposta e fiscalização invasiva das jornadas femininas.
A magistrada lembra que, embora a legislação preveja direitos como a licença-maternidade, é necessário avançar. O Judiciário já adota protocolos com perspectiva antidiscriminatória, mas a solução definitiva exige um “pacto social”.
“Não é mais possível buscarmos soluções pontuais. É necessário um pacto entre Estado, instituições, sindicatos, empresas e a comunidade civil organizada”, afirma Isabela Campos. O reconhecimento do valor do trabalho de cuidado e uma divisão mais justa das responsabilidades familiares são apontados como passos fundamentais para transformar essa realidade e garantir que o desenvolvimento profissional das mulheres não seja freado por uma jornada que não deveria ser apenas delas.
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