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Experiência e juventude: estratégia no turismo e na hospitalidade

Em meio à rápida incorporação da inteligência artificial no mundo do trabalho, cresce o debate sobre como conciliar inovação tecnológica com experiência profissional. Para o especialista em longevidade Michael Clinton, essa equação passa necessariamente pela valorização dos trabalhadores mais velhos e pela convivência entre gerações no ambiente produtivo — um tema especialmente sensível em setores intensivos em serviços, como turismo e hospitalidade.

Segundo Clinton, a bagagem acumulada por profissionais idosos é decisiva para orientar estratégias de adoção da IA de forma prática, ética e eficiente. Ele compara o momento atual ao processo de transformação digital vivido nas últimas décadas, quando trabalhadores experientes foram fundamentais para integrar novas ferramentas ao cotidiano das empresas sem romper fluxos, relações humanas e padrões de qualidade.

O especialista apresentará essas reflexões na 3ª Conferência Idade Maior, em Lisboa, onde defenderá que a inteligência artificial não deve ser pensada apenas como um tema técnico, mas como um processo organizacional que exige memória, contexto e capacidade de adaptação — atributos que, segundo ele, estão fortemente presentes nos profissionais mais experientes.

Mistura fortalece equipes

Clinton sustenta que os melhores resultados surgem quando empresas apostam na mescla entre jovens e idosos no local de trabalho. Enquanto trabalhadores mais jovens trazem novas linguagens, familiaridade com tecnologias e perspectivas inovadoras, os mais velhos contribuem com visão estratégica, leitura de cenários, experiência no trato com pessoas e capacidade de resolver conflitos — habilidades essenciais em áreas como hotelaria, gastronomia, eventos e atendimento ao público.

O especialista critica o modelo de gestão herdado do século XX, que ainda empurra trabalhadores mais velhos para fora do mercado, mesmo quando muitos desejam — e podem — continuar ativos. Para ele, esse afastamento precoce representa perda de talento, desperdício de conhecimento e fragilização das equipes.

Etarismo e mitos sobre tecnologia

Ao contrário do discurso dominante, Clinton afirma que a discriminação etária se sustenta mais em mitos do que em dados reais. Segundo ele, profissionais seniores acompanham, sim, as mudanças tecnológicas, desde que tenham acesso a formação adequada. O problema estaria menos na idade e mais na falta de políticas empresariais voltadas à requalificação contínua.

No turismo e na hospitalidade, onde a experiência humana é parte central do serviço, o afastamento dos trabalhadores mais velhos tende a impactar diretamente a qualidade do atendimento e a transmissão de saberes entre gerações.

Retenção de talentos

Entre as estratégias defendidas pelo especialista estão programas de capacitação acessíveis a todas as idades, projetos multigeracionais, reconhecimento profissional e benefícios adaptados a diferentes fases da vida. Clinton alerta que empresas que ignorarem o envelhecimento da força de trabalho correm o risco de perder talentos e apresentar desempenho medíocre no médio prazo.

Com o aumento da longevidade, ele projeta carreiras que podem chegar a 60 anos de duração, com produtividade mantida até os 70 anos ou mais — desde que haja investimento em aprendizagem contínua. Como exemplo, cita empresas francesas que já adotam políticas específicas para manter trabalhadores idosos integrados às equipes.

No setor de turismo e hospitalidade, onde convivem tradição e inovação, a mensagem é clara: o futuro do trabalho não está na substituição de pessoas pela tecnologia, mas na combinação entre experiência, juventude e inteligência artificial, em um ambiente de aprendizado permanente e valorização humana.

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